Título do Trabalho: Patrimônio Vago: O Poder da Elite

Título do Trabalho: Patrimônio Vago: o poder da elite

INTRODUÇÃO:
O presente artigo tem por finalidade mostrar o descaso da sociedade com o patrimônio local e consequentemente com a sua própria cultura, ferindo também conceitos como os de identidade e memória. Buscando origens e significados para essa relação destrutiva, encontramos no caso de Jaguarão evidências que justificam certos fenómenos sociais. Para tal pesquisa fizemos uso da visão teórica da Micro-História, utilizando como objeto de análise relatos orais dos próprios moradores e nossas próprias experiências em Jaguarão (análise participativa).

1.Idéias Centrais:
Para melhor compreenção e desenvolvimento de nossa pesquisa, fica claro a necessidade de estabelecermos algumas idéias centrais e até mesmo fazer uso de algumas definições que auxiliem na leitura. Não temos a pretenção de resumir grandes debates em poucas palavras ou até mesmo limitá-los em determinados “conceitos” já estabelecidos por estudiosos, nossa intenção aqui é ao contrário disso, levantar a possibilidade de debate e de questionamento sobre determinadas realidades.

1.1.Cultura:
Para estabeler uma idéia do que se entende por Cultura, utilizamos a definição de Christoph Brumann apresentada na obra de Sandra C. A. Pelegrini e Pedro Paulo Funari intitulada: O que é Patrimônio Cultural Imaterial. Segundo Brumann:
“A cultura é o conjunto de padrões adquiridos socialmente a partir dos quais as pessoas pensam, sentem e fazem. Uma cultura não requer proximidade física ou um tipo específico de sociabilidade direta...”(BRUMANN,1999,p S23)
Para os autores dessa obra a cultura consiste em transmitir valores adquiridos pela experiência de determinado grupo humano. Portanto, a cultura não é algo que possa ser transmitido geneticamente, não é determinada pelo seu D.N.A, a adquirimos apartir do momento em que temos contato com outras pessoas. E para que posso ser transmitida se faz necesária a existencia da comunicação.

1.2.Identidade
Para obter uma certa noção do que é identidade utilizamos o artigo Modernidade, identidade e cultura de fronteira do pesquisador Boaventura de Sousa Santos:
“Sabemos hoje que as identidades culturais não são rígidas nem, muito
menos, imutáveis. São resultados sempre transitórios e fugazes de processos
de identificação. Mesmo as identidades aparentemente mais sólidas, como a
de mulher, homem, país africano, país latino-americano ou país europeu, escondem
negociações de sentido, jogos de polissemia, choques de temporalidades
em constante processo de transformação, responsáveis em última instância
pela sucessão de configurações hermenêuticas que de época para época
dão corpo e vida a tais identidades. Identidades são, pois, identificações em curso.”(SANTOS, 1994)

1.3.Cultura Híbrida:
“A hibridização não é algo que apenas existe por aí, não é algo a ser encontrado num
objeto ou em alguma identidade mítica ‘híbrida’ – trata-se de um modo de
conhecimento, um processo para entender ou perceber o movimento de trânsito ou de
transição ambíguo e tenso que necessariamente acompanha qualquer tipo de
transformação social sem a promessa de clausura celebratória, sem a transcendência
das condições complexas, conflitantes, que acompanham o ato de tradução cultural”
(Bhabha, H.K. 2002)
Bhaba chama de movimento de trânsito, ou de transição ambiguo, algo evidênte no cotidiano jaguarense, que serve como grande exemplo para definir o conceito de cultura híbrida. Um espaço como Jaguarão já nasce em meio a uma cultura entrelaçada de brasileiros e uruguaios que transitam, ambos por ambas as partes. Causando uma relação de dupla troca e reciprocidade no embate cultural em que palavras de um dialeto se agregam ao outo e vice-versa, como um exemplo de produto cultural do espaço isolado da cultura híbrida, o que finalmente, forma uma cultura regional chamada de cultura híbrida.

1.4. Patrimônio:
Para esta “conceito” chave da nossa discussão,tivemos como base um texto denominado: Patrimônio e suas Múltiplas Formas da autora Ester Judite Bendjouya Guitierrez presente no livro realizado pelo Programa de Mestrado em Memória Social e Patrimônio Cultural-UFPEL intitulado de Educação Patrimonial: Perspectivas Multidisciplinares. Conforme nos aponta Guitierrez:
“O patrimônio é o legado que as gerações passadas deixaram para nós.Será a herança que deixaremos para a posteridade. O patrimônio é o planeta Terra, com seus monumentos extraordinários e com sua natureza exuberante.Abrange os minerais, a flora e a fauna, e inclui nós_ mulheres e homens. Abraça as formas de expressão, os modos de criar, de fazer, de viver, a as criações científicas, artísticas e tecnológicas.O entendimento das múltiplas formas do patrimônio implica em compreender a diversidade natural e cultural”.(2008,p. 17-20)

1.6. Micro-História:
É uma nova tendência de estudar a História que surge pelos anos 1970, com a proposta resaltar a participação dos indíduos no passado, e não só estudar uma classe, um grupo, mais o indivíduo e suas experiências.O quanto a partipação desse sujeito é decisiva e reflete toda a sociedade a sua volta. Essa nova visão contribuiu muito para a escrita da história e para a consolidação de novas metodologias e tecnicas de estudo.Se baseia em estudos de casos isolados para explicar a história em niveis maiores que abranjam uma sociedade inteira

2.Estudo de Caso: Jaguarão-RS
Nesta parte do trabalho, tentaremos mostrar como foram conferidos os títulos de patrimônio aos monumentos de Jaguarão.Quais são as construções tombadas,quem foi responsável pela escolha dos lugares a serem declarados como patrimônios.Além disso queremos evidenciar que todo esse procedimento ocorre bastante distante da população, que permanece alienada, disconhecendo a própria ideia de patrimônio.

2.1. De onde surgiu o patrimônio jaguarense
O que hoje se tem como patrimonio em Jaguarão basicamente se limita aos prédios e espaços tombados por órgãos juridicamente competentes, como o IPHAN. Entre eles há principalmente casa de fámilias tradicionais, igrejas, clubes elitistas, a Ponte Visconde de Mauá, entre outros prédios cuja legitimidade de carater social sobre o conceito de patrimonio são questionáveis.

O conceito de patrimonio prevê a identificação da população local, numa tentatva de inclusão e reconhecimento da própria, sobre o alvo de exaltação da sua própria cultura. Entretanto, o processo jurídico pelo a qual passa o encaminhamento de tombamento, muitas vezes não da voz àqueles que dão significado ao patrimônio. Que é o caso de Jaguarão, em que alguns orgãos convernamentais se reuniram e determinaram o tombamento de certos pontos da cidade. Porém esse procedimento não teve participação da população local, ficando evidente que poucos símbolos da cultura regional foram exaltados e os lugares que receberam destaque ficaram por simbolos de uma cultura elitista.

2.2. Relação destrutiva: Sociedade X Patrimônio
Embora hoje haja toda uma preocupação para a questão da Educação Patrimonial e dentro da própria Universidade presente em Jaguarão-RS existam programas de extenção para que sejam abordadas essas tematicas em escolas de região. Podemos observar uma extrema carencia da população em assimilar conceitos tais como os de cultura,patrimônio, identidade e memória a sua realidade.

O que para essa população até pouco tempo atrás se resumiria a casas velhas e caídas, a rúinas sem grande valor, hoje se atríbui um valor inestimável e se espera que esta população saiba reconhece-lo.Mas de fato quem atribui o valor de patrimônio ao que aos olhos da população eram apenas contruções comuns.

Jaguarão é uma cidade antiga com mais de 200 anos de história, o que é de se esperar que existam construções antigas em sua região.Mas estas construções que encantam aos viajantes que por ali passam, permanecem desapercebidas ao olhar dos locais já acostumas com essa mesma paisagem.E desde a sua fundação muitas coisas aconteceram, muitas lendas foram contadas, crendices populares foram disseminadas e hoje estão esquecidas.

A cidade de Jaguarão é um reflexo do que vem acontecendo em diversas partes do mundo.Essa despreocupação em manter o patrimonio salvaguardado é uma influencia da globalização e do grande desenvolvimento tecnológio em que nos encontramos, onde as coisas passam de super novidades para ultrapassadas em muito pouco tempo.E isso acarreta num choque muito grande entre a cultura do local onde se vive e a cultura mundial.

Pela paisagem de Jaguarão, casarões antigos e restaurados se misturam as casas velhas que caem aos pedaços por falta de recursos dos seus proprietários, há também mansões comtemporâneas que contrastam o auge de contextos diferentes.
E juntamente com as questões de identitadade e cultura são atreladas ao patrimônio visões econômicas a fim de gerar o turismo e a renda para a localidade. Quanto a isso é claro que é importante que a comunidade posso aproveitar o patrimônio a seu favor mas ele jamais deve ser visto com apenas este olhar.O patrimônio não é só um produto de consumo, mais parte da memória e da história da sociedade.
Mas este deve ser reconhecido por esta população, pois se continuar assim seguiremos reproduzindo o domínio de um conhecimento das elites acadêmicas e de uma forma irá uniformizar a cultura.

2.3. “Macro-Universo” dentro de um “Micro-Universo”.
Segundo relatos da população local os últimos dez anos foram extremamente conturbados. Tendo em vista a situação pacata em que se encontrava a cidade essencialmente rural. Repentinamente foram instalados os Free-Shoppings na cidade uruguaia de Rio Branco, que faz divisa com Jaguarão, e este fato despertou o potencial turistico da cidade e consequentemente fez com que o fluxo de pessoas aumentasse consideravelmente. Anos depois a cidade recebe o título de cidade histórica, sendo uma das cidades com maior número de tombamentos no país. Se tornando um foco de interesse acadêmico, econômico e cultural.

No ano de 2008 a Unipampa começou a se instalar na cidade, ampliando ainda mais o contato com o resto do Brasil, principalmente apartir de 2010 onde a Universidade Federal adotou o Sistema de Seleção Unificado (SiSU), abrindo a oportunidade para a vinda de estudantes de todos os cantos do país, remodelando novamente necessidades economicas na cidade.

Todavia toda a discução a cerca do que seria desenvolvido e pesquisado no centro tecnológico que é a Unipampa nunca foi uma discução pública. Ou seja, as necessidades foram criadas a partir de demandas que não as da população, provavelmente implica ausência de identificação destes para com o meio acadêmico que se desenvolveu marginal à sociedade local.O Estado se apropria de um discurso de inclusão social quando na verdade prega o neo-liberalismo e se disfaz de suas funções transmitindo-as para outros setores da sociedade privada

3.Conclusão:
Concluimos que as pessoas se preocupam em identificar e rassaltar identidades nacionais numa logica que justifica as elite e segrega as massas ao saber erudito,distanciando de uma proporcional valorização da cultura local. Não assimilam ao seu dia a dia esse cultuta elitista, apenas a reconhecem e identifam mas não se agregam a tal. O que é patrimônio para a cademia pode não ser considerado patrimônio pelo povo.

4.Bibliografia:
- Bhaba, HK. 2000 Minority Culture and Creative Anxiety, disponível em http://www.britishcouncil.org\studies\reinventing_britain\bhabha
acesso em 2000
- Pelegrini, SCA; Funari, PA. 2008. O Patrimonio Cultural e Material. São Paulo, SP. Ed. Brasiliense.
- Vergara, F. Gutierrez, EJB. Santos, DOM. Melo, AD. 2008. Educação Patrimonial, perpectivas multidiciplinares. Pelotas, RS. Ed. Da UFPel
- Santos, BS. 1993. Art. Modernidade, identidade e cultura de fronteira. In.: Revista Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 5(1-2): 31-52, 1993