Paper Chapeuzinho Vermelho

PAPER CHAPEUZINHO VERMELHO – parte da Ju (história original; freeway; tabela)

A história da Chapeuzinho Vermelho e vários outros contos de fadas que são conhecidos atualmente remontam de origens para além do século XI, onde circulavam como histórias orais, e acabaram sendo recolhidos e registrados, passando por diversas modificações e adaptações ao longo dos séculos.

A psicóloga e pesquisadora Maria Rita Kehl, em seu artigo “A Psicanálise e o Domínio da Paixão” (KEHL, M. R., 1987), do livro “Os Sentidos da Paixão”, apresenta a versão original oral da história da Chapeuzinho Vermelho (ver anexo: coletânea de histórias). É uma versão totalmente bruta, sem qualquer lapidação ou amenização, já que circulava em meio a uma sociedade que tinha a visão de que a criança igualava-se ao adulto e que, portanto, não havia problemas em ouvir histórias com conteúdo adulto – que seria censurado nos dias de hoje – ou viver em meio aos hábitos de vida adultos. Sendo assim, o único elemento que se deixa somente insinuar é o fato do homem perverso, que mata a mulher idosa e depois tem relações sexuais com a sua neta, é representado pela figura do lobo, o que dá a dimensão alegórica e maravilhosa à história. De resto, a história é rica em sexualidade explícita, violência, canibalismo e escatologia: a menina é levada pelo lobo a tirar a roupa e deitar-se com ele na cama, comer a carne e beber o sangue da própria avó e, em algumas versões, fazer suas necessidades na cama, com o lobo.

(...)

Quando se trabalha com a transposição da linguagem escrita para a cinematográfica, é interessante notar as soluções utilizadas para compensar as diferenças entre as duas, a fim de destacar os mesmos pontos de conteúdo em ambas, a partir da forma própria de cada uma.
O filme Freeway (ver coletânea de histórias; ver coletânea de vídeos), lançado em 1996, com direção de Matthew Bright, conta uma versão atualizada e adaptada de Chapeuzinho Vermelho, de acordo com o modo de vida do subúrbio norte-americano do século XX. Por isso, os problemas da menina rebelde, que desobedece a mãe e não toma cuidado são marcados na personagem, que é esperta e rebelde e violenta, porque são traços necessários para o seu modo de vida e para a sua sobrevivência em meio à violência extrema que a circunda. Essas características ficam bem marcadas na personagem em todas as decisões que toma e ações que realiza – uma parte que marca esses elementos é a decisão do júri de considerar Vanessa responsável por seus atos (ver vídeo condensado Freeway).
O primeiro ponto, no filme, que explicita a relação desta história com a da Chapeuzinho Vermelho – com nuances diferenciadas, entretanto – é a abertura: uma animação curta em que um lobo persegue várias mulheres de vermelho (“Chapeuzinhos”) em roupas curtíssimas. O que se destaca nessa abertura é a sensualidade, elemento que perpassa o filme como um todo, talvez como o que dirige a história. A sensualidade e, mais que isso, a explicitação da sexualidade, em seu sentido físico máximo, aparecem no filme pelas figuras masculinas mais velhas que se relacionam com a personagem principal – Chapeuzinho – e a deixam traumatiza: o padrasto que a estuprou; um velho que cuidou dela e que, também, tentou estuprá-la; Bob, o homem que fingiu ajudá-la, mas tentou matá-la e estuprá-la, depois de tentar seduzi-la algumas vezes – por exemplo, quando disse à Vanessa que para ajudá-la ela deveria “Let me in”, o que, em uma tradução literal significa “deixar-me entrar”, o que remete diretamente ao sentido sexual da penetração. Esse trauma fica bem marcado por um pesadelo que a menina tem, em que se seguem imagens desses homens que a maltrataram, intercaladas com uma cena de sexo explicíto (ver anexo imagens; ver vídeo Freeway condensado). Outro momento de sexualidade é quando Bob faz a Vanessa uma série de perguntas pornográficas sobre o que a menina sentiu quando teve que fazer sexo oral em seu padrasto – o homem a faz dizer em voz alta, por exemplo, que se sentiu como se fosse um “urinol humano”.
Além da sexualidade, outros elementos destacados no filme são a violência, que aparece o tempo todo com a morte do namorado de Vanessa, os tiros em Bob, a morte da avó e a morte de Bob; e a religião. Esta é marcada pelo caráter extremamente moral que há por trás das ações da personagem principal, que pratica atos violentos, mas por uma boa causa: tenta matar Bob da primeira vez porque se sentiria culpada se ele ficasse à solta, livre para matar outras mulheres e pergunta a Bob, antes de atirar nele, se ele “aceita Jesus como seu salvador” (ver vídeo condensado Freeway).
Por fim, o filme é recheado de elementos visuais e linguísticos implícitos que remetem à Chapeuzinho Vermelho. No âmbito visual, há inúmeras vestimentas e objetos de cor vermelha no filme; há a aparição rápida de um desenho da Chapeuzinho Vermelho na televisão da sala de Vanessa; há uma estátua de lobo na casa dos Wolverton (ver anexo imagens). O delírio que Vanessa tem quando está sedada na prisão também é recheado de significados e imagens ocultas: a avó aparece vestida com uma túnica branca, na frente de seu trailer, em uma atmosfera idílica e etérea, com animais à sua volta, árvores ao fundo que lembram rabos de lobo e homens semi-nus (ver vídeo condensado Freeway). Toda essa cena remete, no sentido religioso, à arca de noé e à salvação, já que a casa da avó era para a protagonista, um refúgio seguro para o dilúvio metafórico de sua vida. No âmbito da linguagem, há um momento em que Bob diz à menina como é fácil se abrir com estranhos, o que remete à fala famosa de versões escritas de Chapeuzinho Vermelho em que a mãe alerta a menina para não falar com estranhos; e outro em que Vanessa comenta o porquê de seu nariz ser tão grande, o que lembra o diálogo entre o lobo e a Chapeuzinho, nas histórias escritas e orais, quando estão na cama. Tudo isso somado à cena final, clássica, em que o lobo come (ou mata, nesse caso) a avó e deita na cama para esperar pela Chapeuzinho.

Bibliografia:

http://www.revistapsicologia.com.br/materias/hoje/desumano.htm (chapeuzinho original)

SOBRE A TABELA:

Após a coleta e análise de várias versões, em diferentes linguagens e de diferentes épocas, da história da Chapeuzinho Vermelho, o fenômeno que se pode observar é a formação de um arco de mudanças de enfoque.
Na oralidade, em perspectiva histórica, o que se observou foi o partir de uma origem em que se evidenciava a presença de elementos fortes de maneira explícita (sexualidade, violência, escatologia) para chegar em uma versão contemporânea em que há um total ocultamento dos elementos explicitados clássicos, sem mortes, sem sexo, sem enganação – o que se tem é uma menina independente, típica personagem feminina infantil/adolescente da pós-modernidade, que consegue resolver seus problemas sozinha.
Na linguagem escrita, parte-se, por sua vez, de uma total amenização da história, com uma versão em que os lobos são bons, por causa da enorme influência religiosa do período; para uma insinuação maior de elementos como a sensualidade (com a beleza da menina, em Perrault) e a forte punição do lobo (Grimm), mas ainda com cunho cristão forte; em seguida há o ocultamento de qualquer relação com a sexualidade, na versão em que o lobo é trocado pela ogra; e, por último, há a mudança total no enfoque da história na versão contemporânea, em que está presente o forte jogo com a linguagem e a capacidade de superação dos medos da menina.
No cinema, o que se observa é a tímida insinuação dos elementos sexuais e violentos, na versão do desenho mudo; seguida pelas versões mais recentes em que se recupera os elementos latentes da história original, com a exploração extensa da violência e da sexualidade; e, por fim, novamente uma mudança de enfoque, em que a história da Chapeuzinho Vermelho serve de base para uma brincadeira com os personagens, com a manutenção apenas das características típicas da Chapeuzinho.
O quadro final é, portanto, este:

ORALIDADE

Explicitação

Ocultamento

LITERATURA

Insinuação
Amenização Mudança de Foco
Ocultamento

CINEMA

Explicitação
Insinuação Mudança de Foco

Conclusão: a situação do mundo contemporâneo deu liberdade para as adaptações de histórias em geral, o que trouxe um caráter jocoso de aproveitamento da história original da Chapeuzinho Vermelho para outros fins. O elemento mais ressaltado nessas versões é a independência da menina, tema que diz respeito à nova situação da criança na contemporaneidade.