Como se dã o Processo de Formaçã da Personalidade da Criança? O Fator Educativo

Como se dã o Processo de Formaçã da Personalidade da Criança? O Fator Educativo

RESUMO
Através dos estudos feitos, percebe-se que a criança não nasce com sua personalidade cem por cento formada, mas que ela herda alguns traços da personalidade dos seus pais e de seus antepassados e que desde cedo ela precisa receber educação e bons exemplos da família e através da educação transmitida por seus pais, bem como de valores, princípios éticos e bons exemplos, sua personalidade irá sendo construída. Receberá também modificações do meio em que vive e da leitura de mundo que faz e de como reage em situações cotidianas, fazendo assim com que sua personalidade vá se formando e se desenvolvendo numa constância em que a cada etapa da vida, na infância, adolescência e na fase adulta deverá se autoanalisar, revendo seus conceitos e posições frente às questões da vida e permitindo-se mudar, crescendo como ser que interage e influência outros indivíduos a sua volta.

Palavras-chave: Personalidade. Formação. Educação.

1. INTRODUÇÃO
O presente estudo visa conceituar personalidade, desvendando se a mesma já está formada em sua totalidade no momento do nascimento do ser humano ou não, se ela recebe modificações no decorrer do crescimento do indivíduo, o que é herdado da família e sua importância frente a personalidade da criança e o valor do fator educação. Para tanto se buscou trazer a posição de alguns teóricos sobre a definição de personalidade, como ela se constitui, como a família atua nesse processo e como cada um vê a relevância do fator educação.
A família ao conceber outro ser humano está ciente do real peso de sua participação na vida emocional e no desenvolvimento da personalidade desse ser frágil e dependente? Está pronta para dar atenção, muito amor e ser um bom exemplo para essa criança que está aberta de todas as formas para receber todo tipo de influência e ensinamento para seu pleno crescimento? A família precisa estar ciente da importância de passar valores éticos e educar com limites, coerência e afeto, para forjar um caráter sadio e uma personalidade alicerçada em princípios que irão nortear a sua vida adulta. Ao estudarmos as ideias de vários teóricos percebeu-se a preocupação desses estudiosos de diversas áreas em que as famílias eduquem seus filhos e o façam com afeto, dando bons exemplos e ensinando valores e princípios morais na primeira infância que é a base de toda a formação da personalidade dessa criança.
O presente artigo, na intenção de perceber a relevância da família e o fator educação na formação da personalidade da criança, entrevistou uma mãe, com a finalidade de compreender a transmissão de valores, princípios e educação dada a seus filhos pela mesma, se tiveram a mesma educação ou houve diferença ao educar os mesmos se reagem da mesma forma expostas as mesmas situações da vida diária. Do registro feito foram retirados elementos que permitem esclarecer a importância do fator educação ministrado pela família à criança em seus primeiros anos de vida. Para aprofundamento dos estudos foram realizados estudos bibliográficos referente ao tema e então uma observação dos pontos abordados.

2. O QUE É PERSONALIDADE
Quando falamos em personalidade nos veem a mente muitos significados, e cada um de nós define a palavra personalidade de pontos de vista bem diferentes. Uns dizem que uma pessoa tem personalidade “forte” porquê é decidida, determinada, independente, já outra pessoa que é o oposto, costuma-se dizer que não possui personalidade, ou tem personalidade “fraca”.

Mas na realidade o que é personalidade, qual é o real conceito de personalidade?

O Dicionário de Psicologia de James P. Chaplin (1981, p. 418), diz que personalidade é uma “organização dinâmica, dentro do indivíduo, dos sistemas psicofisiológicos que determinam o seu comportamento e pensamento característico.”

Chaplin (1981, p. 418), traz a definição de Adler sobre personalidade “estilo de vida do indivíduo, ou a maneira característica de reagir aos problemas da vida, incluindo os seus objectivos [sic] na vida.”
Os autores Hall e Lindzey (1984, p. 1), em seu livro “Teorias da Personalidade”, escrevem que a teoria da personalidade começa com os grandes sábios como “Hipócrates, Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, Bentham, Comte, Hobbes, Kierkegaad, Nietzsche e Maquiavel”.

Estudos da personalidade a partir de observações clínicas iniciaram com Charcot, Janet e principalmente, com Freud, Jung e McDougall (HALL; LINDZEY, 1984, p. 2)

Mas para os autores Hall e Lindzey (1984, p. 6), personalidade tem duas conceituações:

A primeira relaciona-se com habilidades sociais. Nesse caso a personalidade de um indivíduo poderia ser avaliada pela eficiência em produzir reações positivas em diversas pessoas e em diferentes situações. [...] A segunda conceituação avalia a personalidade pela impressão que o indivíduo causa em outras pessoas, podendo-se então falar em “personalidade agressiva”, “personalidade passiva” e “personalidade tímida”. Em cada um desses casos, o observador seleciona um atributo ou qualidade marcante do indivíduo e que, presumivelmente, vem a ser um aspecto característico da impressão que ele causa no contato com os outros, e sua personalidade passa a ser identificada por esse termo. É evidente que em ambas as conceituações existe um elemento de valoração, pois personalidades são identificadas, comumente, em termos de boas ou más.

Silva (2007, p.124), cita a definição de DaMatta, “...personalidade define o conjunto de traços que caracterizam todos os seres humanos. É aquilo que singulariza todos e cada um de nós como uma pessoa diferente, com interesses, capacidades e emoções particulares.”

Já o Dicionário de Termos de Psicanálise de Freud (CUNHA, 1978, p. 151), diz que a personalidade de um indivíduo está dividida em três esferas: O superego, o ego e o id.

Mas o que é superego? Em resumo seria a internalização de forças inibidoras do mundo. È o filtro que barra as vontades do id, é o NÃO posso, NÃO devo. Ele aprofunda-se no id. O dicionário de Cunha (1978, p. 205), explica que:
é criado no ego um padrão que contrasta com as outras faculdades, pela observação, crítica e proibição.
O superego é o sucessor e o representante dos pais (e educadores), que supervisionam as ações do indivíduo em seus primeiros anos de vida, ele perpetua as suas funções quase sem modificações.

Superego no dicionário de Chaplin traz a definição de Freud (1981, p. 542), “parte do psiquismo ou personalidade que se desenvolve a partir da incorporação de normas morais e proibições dos pais, particularmente do pai. O superego é, superficialmente, equivalente à consciência.”
O superego é “o terceiro e último sistema da personalidade a desenvolver-se”, também “é o representante interno dos valores e ideais tradicionais da sociedade, transmitidos pelos pais e reforçados pelo sistema de recompensa e castigos impostos à criança”, “é a arma moral da personalidade” (HALL; LINDZEY, 1984, p. 28),

O ego é quem realmente somos. “Ego é o eu, é a parte organizada do id.” (FREUD, 1978, p. 54)

O ego no dicionário de Chaplin (1981, p. 169), é apresentado como “a pessoa, em especial a concepção que o indivíduo tem de si mesmo”.

No livro “Teorias da Personalidade”, os autores Hall e Lindzey (1984, p. 27), escrevem que o ego “obedece ao princípio de realidade”, “faz distinção entre as coisas da mente e as do mundo exterior”.

Por sua vez, o id, ao contrário do ego, não é organizado e não avalia o perigo. “É a obscura parte inacessível de nossa personalidade;” (FREUD, 1978, p. 91)

O id para Hall e Lindzey (1984, p. 26), “é formado pelos aspectos psicológicos herdados e presentes no nascimento, inclusive os instintos”.

E finalizando com a definição do id, para Chaplin (1981, p. 275), é:
A parte da mente, ou psique, que é a sede da libido. Dele surgem os impulsos caóticos, animalescos, que exigem satisfação. O id está em contacto [sic] com o mundo exterior apenas com o corpo e assim centra as sua exigências no corpo. É governado inteiramente pelo princípio do prazer e procura forçar o ego, que é governado pelo princípio da realidade, a aceder aos seus desejos, indiferente às consequências.

Muitos estudos existem de vários estudiosos, pensadores e pesquisadores sobre o comportamento humano para que possamos de alguma forma compreender melhor o mesmo.

Chappin (1979, p. 21), escreve: “As teorias da personalidade existentes não se contradizem, mas se completam, uma vez que a verdade é sempre convergente. Dependerá do ponto de vista donde se parte e dos objetivos propostos.”

Falarmos de personalidade é falarmos de hipóteses, teorias e de definições empíricas, que abrangem um campo muito amplo sobre o comportamento, as características, as relações e as reações humanas.

2.1 O FATOR EDUCATIVO
Como se dá a formação da personalidade do indivíduo? Para compreendermos isso reportemo-nos para a infância do mesmo e vejamos o fator mais importante dessa formação, a educação. E quem exercerá papel decisivo dessa transmissão de regras e condutas e dessa formação se não a família?

“A família é parte integrante da sociedade da qual depende, cabendo-lhe por natureza, a responsabilidade de formar pessoas sadias,...” (FERREIRA, 1977, p. 197)

A escritora Ferreira (1977, p. 71), diz que “são muitas e bem diversas as causas e fatores que concorrem para diferenciar os indivíduos da mesma sociedade. Além dos fatores biológicos e sociais exerce capital importância o fator hereditário.”

Ao nascermos herdamos um conjunto de fatores hereditários como características genéticas físicas, a estrutura corporal, feições, aparência exterior, até traços e timbre de voz e também de personalidade de nosso pai, mãe e de nossos antepassados.

Sabemos que a personalidade de uma criança recebe influência genética de seus pais, portanto já dentro do ventre de sua mãe ela está em formação, recebendo também marcas das experiências vividas pela mãe durante a gravidez. Ferreira (1977, p. 71), diz que: “O fator hereditariedade inclui todos os fatores existentes no indivíduo desde o começo de sua vida, não ao nascer, mas no momento da concepção, cerca de nove meses antes do nascimento.”

Entretanto para o mundo a criança não estruturou ainda psicologicamente seu mundo pessoal, a não ser certas influências da mãe, nos nove meses de intimidade com o filho, oferecendo-lhe indiretamente certos condicionamentos orgânicos-neurológicos, decorrentes de suas vivências serenas ou agitadas, tristes ou felizes. (CHAPPIN, 1979, p. 25)

A família é o núcleo que tem o papel mais importante no desenvolvimento da formação da personalidade dos filhos. É a família quem irá ser o instrumento de socialização da criança. Seu primeiro contato com o mundo exterior será feito pela “ponte/família”. Pereira (2009, p. 108), fala sobre as influências diretas e indiretas do “Modo de Família” de Shaffer (2005), ”A família é constituída de partes inter-relacionadas, cada qual afetando e sendo afetada pela outra e ambas contribuindo para o funcionamento de um todo.”. Pai, mãe e filho formam a família nuclear, são as influências diretas, efeito direto, cada membro da família afeta e é afetado pelo outro. O efeito indireto de influências vem de outros irmãos, avós, tios e outros.

A personalidade da criança se forma e se molda pela comunidade em que vive, desde o nascimento. Primeiramente, a comunidade se restringe à família; depois à escola, à igreja os professores, os amigos, [...] todos exercem influência. A educação que a criança recebe em casa determinará, em grande parte, os tipos de traços biossociais que ela irá desenvolver. [...] Alguns psicólogos consideram que o fator do nascimento é muito importante na determinação dos traços da personalidade. A colocação da criança na família tem válida importância, criando estereótipos de personalidade. (FERREIRA, 1977, p. 69)

O autor Charles (1975, p. 1), em seu livro “Piaget ao alcance dos professores” escreve algumas ideias chaves de Piaget sobre o aprender e crescimento intelectual das crianças: “As crianças têm estruturas mentais diferentes das dos adultos. Não são adultos em miniaturas; elas têm seus próprios caminhos distintos, para determinar a realidade e para ver o mundo.”

Parafraseando Charles (1975, p. 20), sobre as ideias de Piaget, ele pontua que ao desenvolver certo nível de consciência a criança tem um sentido do que é certo e do que é errado, na maioria das vezes sabe quando está desobedecendo às ordens específicas de um adulto.

É fundamental que a criança obtenha “domínio perfeito dos instintos biológicos pela alma racional com o auxílio da educação.” (FERREIRA, 1977, p. 67)

A criança precisa aprender e saber controlar os seus instintos e ímpetos e é a família quem tem o papel de educá-la para que tenha esse domínio.

O autor Chiappin (1979, p. 92), escreve que, “educar é antes de tudo um ato de interioridade. É inclinar o homem para que leia dentro de si.” Educação para o autor significa:

‘tirar de dentro para fora’. “Extrair, suscitar, estimular as potencialidades do ser. É o processo do desenvolvimento da vida humana. Toda nossa vida é uma contínua educação e formação: o trabalho, o jogo, a convivência, o estudo, uma alegria, uma dor, um nascimento e uma morte, uma carência e uma posse, tudo leva a aprender.” (CHIAPPIN, 1979, p. 92)

O fator educativo contribui no pleno desenvolvimento do indivíduo, bem como dá princípios fundamentais que orientam o comportamento humano, assim estimulando e desenvolvendo a responsabilidade do mesmo.

Desde muito cedo já se percebe a preocupação de muitos estudiosos sobre o fator educativo na formação da personalidade da criança, em cartas trocadas entre Freud e o pastor protestante, teólogo e pedagogo Pfister (1998, p. 114, 115), no ano de 1922, Pfister escreve à Freud que ao escrever o livro “O amor pela criança e suas falhas de desenvolvimento” (1922), dirigia-se a pais e educadores, pois os letrados, psicólogos e pedagogos, seus próprios colegas se encontravam bitolados.

Em carta posterior à Freud, Pfister diz que a educação deve ter um sentido ético e cita que Freud fala da necessidade de se educar as crianças. Pfister (1998, p. 117), escreve sobre as crianças para Freud em uma carta: “Não que lhes sopremos nosso próprio hálito de pensamento e lhes inspiremos nossa própria alma; contudo, uma porção de higiene anímica e social elas certamente precisam ter e concretizar num amor sadio.”. Freud (1998, p. 118), responde ao amigo escrevendo que “é necessário que haja educação, ela pode até ser severa; não é prejudicial que ela se apoie em conhecimentos analíticos”, isto é de psicanálise.

Em seu livro “Teorias da personalidade”, Hall (1984, p. 36), escreve que para ele:
“Freud foi, provavelmente o primeiro teórico a dar ênfase aos aspectos evolutivos da personalidade, destacando a importância decisiva dos primeiros anos de vida de uma pessoa. Freud descobriu que a personalidade aos cinco anos de idade já se apresenta bem formada, sendo os anos subsequentes dedicados à elaboração dessa estrutura básica.”

Freud concluiu seus estudos com base nas experiências de investigação durante o tratamento feito com seus pacientes, onde os levava a vivenciarem “a primeira infância”. Estudava os adultos, raramente crianças (HALL, 1984, p. 36), ao contrário de sua filha Anna Freud que focou suas análises nas crianças, influenciada pelo pastor e pedagogo Oskar Pfister. (FREUD, 1998).

Freud acreditava que toda criança passa por uma série de estágios dinamicamente diferentes, durante os cinco primeiros anos de vida, seguidos de um período de cinco a seis anos – o período de latência – em que essa dinâmica atinge uma relativa estabilidade. Com o advento da adolescência, essa dinâmica irrompe novamente para estabilizar-se à proporção que o jovem caminha para a vida adulta. Para Freud, os poucos primeiros anos de vida são decisivos na formação da personalidade. (HALL, 1984, p. 40)

Freud observava seus filhos, o que resultava em ricas experiências bem como tinha o hábito de se auto-analisar. (HALL, 1984)

A escritora Borges (2002, p. 84), cita o filósofo, religioso e educador João Amós Comênio: “A questão da disciplina é considerada por ele como essencial para a formação do caráter das crianças. Ele a concebe como um meio necessário para ensinar, e não para punir.”

Segue dizendo que deve ser feita sem ódio ou ira, explicando para a criança que está sendo corrigida para o seu próprio bem, porque fez algo que não é correto. Comênio dizia que a educação “deve ser ministrada com bons exemplos, palavras carinhosas, amor constante, sincero e manifesto.” (BORGES, 2002, p. 84)

É necessário que os pais tenham equilíbrio ao educar seus filhos, pois “o equilíbrio de condicionamentos e estruturações pessoais levará fluentemente a formar crianças, jovens e adultos positivos, adaptados ao bom senso real, ao equilíbrio emocional, à autodeterminação responsável e feliz.” (CHIAPPIN, 1979, p. 26)

O fator educativo contribui no pleno desenvolvimento do indivíduo, bem como dá princípios fundamentais que orientam o comportamento humano, assim estimulando e desenvolvendo a responsabilidade do mesmo.

Com bons diálogos e exemplos construtivos, os pais devem ajudar a criança a assimilar esses valores, que serão a base e o equilíbrio da personalidade de um futuro adulto alicerçado em princípios éticos e coerentes, tornando-se uma pessoa segura de si mesmo, que sabe o que quer para sua vida e para todos ao seu redor, os quais dependem dela. Um adulto vencedor que enfrenta as dificuldades e resolve os problemas com maturidade e segurança.
“O primeiro papel do indivíduo é ser fraco e dependente, mas também crescer e tornar-se independente. O papel desempenhado pela criança depende muito dos pais e da família. Devem os pais dar oportunidade para as crianças crescerem. É fácil compreender que muitos problemas, trazidos aos gabinetes de orientação, advém das deficiências educacionais da família.” (FERREIRA, 1977, p. 70)

Valores, ética, responsabilidade e princípios, devem obrigatoriamente fazer parte do processo educativo de todo indivíduo, para plena formação de sua personalidade. O autor Chiappin (1979, p. 84), escreve: “Os valores são as qualidades dos seres que influem em nosso psiquismo e nos movem a agir em sua direção como: a verdade, a bondade, a justiça, a beleza, o prazer, a elegância, a arte, a utilidade, a espiritualidade, o amor... O valor é ‘perspectiva do espírito’ e ‘posição do ser. ’”

Os pais fazem planos para seus filhos, projetam e cobram dos mesmos, tendo as “melhores das intenções” e por vezes se frustram em decepções e culpas, perguntando-se: “Onde foi que eu errei?” Infelizmente não se dão conta que o erro pode estar na educação que foi dada, ou melhor, na que não foi dada, na falta de limites, no dizer sim a tudo o que o filho queria na falta de apoio e afeto.

“A personalidade mal habituada e negativamente condicionada, poderá descondicionar-se [sic] destas ingratas condutas autodestrutivas e recondicionar-se favoravelmente? Quem foi sensibilizado inadequadamente em sua emotividade, poderá dessensibilizar-se [sic] para melhor equilíbrio emocional e maior maturidade integrativa? Pode o homem, bloqueado por imaturidades e neuroses, reestruturar-se como personalidade mais feliz?” (CHIAPPIN, 1979, p. 21)

Borges (2002, p. 73), escreve que atualmente alguns pesquisadores não veem como urgente o conceito de intervenção da formação da personalidade da criança nos primeiros anos de vida por considerarem que a personalidade se desenvolve “durante todo o ciclo da vida”. Mas parafraseando a autora, não se pode negar o peso das primeiras experiências de vida de uma criança, elas são a base para a construção de seu caráter, sua personalidade, quem ela é e quem se tornará.

Se os pais negligenciarem hoje uma educação sadia a seus filhos, dotada de amor, atenção, limites, ensinamentos, diálogos, valores éticos e exemplos de bom caráter e atitudes corretas, estarão contribuindo para a formação de um indivíduo desequilibrado e com problemas de personalidade, que não terá condições de viver plenamente em sociedade nem de contribuir para o crescimento da mesma.

A escritora ressalta que para Comênio a educação da família era de extrema importância, para ele as crianças só deveriam ser mandadas para a escola regular depois dos seis anos de idade, antes dessa idade, deveriam ser educadas em casa, na “escola do regaço materno”, onde “aprenderiam os rudimentos de todas as coisas a serem aprendidas posteriormente”. (BORGES, 2002, p. 75)

“Para essa escola do regaço materno, Comênio desenvolveu um plano de curso, demonstrando sua compreensão sobre a importância e a viabilidade de lançar nessa fase inicial da vida, as sementes da verdadeira educação, que promove a instrução, a virtude e a piedade.” (BORGES, 2002, p. 75)

A prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança são as primeiras virtudes a serem implantadas nas crianças. Essas virtudes formam o alicerce sobre o qual a moral será edificada. [...] Essas atitudes, descritas por Comênio como necessárias para o adequado desenvolvimento da personalidade infantil, devem ser ensinadas sempre de forma prática, pois as virtudes são cultivadas com atos e não com palavras. (BORGES, 2002, p. 83)

Os pais devem estimular seus filhos com bons exemplos, pois eles certamente irão imitar as atitudes de seus pais, que para os pequenos são o tudo e o todo de sua vida.

Os pais devem educar seus filhos com muito amor, transmitidos não só por palavras, mas também por gestos. A criança precisa sentir-se amada, mesmo quando está sendo corrigida, deve compreender que o pai e a mãe a educam e corrigem porque a amam e querem que ela se torne uma pessoa melhor. “A felicidade relativa de cada ser está relacionada à harmonização e coerência dos valores totais de sua vida.” (CHIAPPIN, 1979, p. 16)

Será que temos real consciência e noção da grandiosa tarefa e porque não a mais importante de todas, a de contribuir na formação da personalidade de outro ser humano, frágil, indefeso e totalmente dependente? Contribuição essa que deve ser feita com responsabilidade e com fidelidade a princípios e valores éticos.

Em seu livro “Educação e Personalidade”, Borges (2002, p. 66), escreve que “na concepção de Comênio todos deveriam preocupar-se com a educação integral de todas as pessoas, principalmente das crianças e dos jovens”

É responsabilidade dos pais educarem os filhos desde os primeiros sinais de consciência da criança, porque é nos primeiros anos de vida que a personalidade está pronta para receber as primeiras instruções, os ensinamentos básicos, o conhecimento de como proceder nas mais variadas situações e essa educação reflete no comportamento e na personalidade da criança.

A criança deve ser estimulada em todos os aspectos e sentidos, pois suas conquistas e experiências ela as levará para toda sua vida adulta. É preciso que os pais tenham sensibilidade e consciência de que precisam também trabalhar os erros e os acertos, as vitórias e também as derrotas, pois na vida é certo que nem sempre ganhamos e esse “perder”, não significa necessariamente uma derrota, às vezes é preciso recuar, ponderar algumas questões, formular novas estratégias para então avançar com segurança de que está agindo de forma correta e coerente.

“É o ser humano na sua totalidade e unidade, harmonia e integração. O homem é ser racional, livre, capaz de perfeição, sequioso de sabedoria e auto-realização. É essencialmente educável e perfectível. Caracteriza-se por não ser ‘coisa feita’, acabada, com trajetória definida e ideal já prefigurado, mas por um ‘fazer-se contínuo’, ‘um contínuo vir-a-ser’, sendo um dinamismo que se autodetermina, um feixe de energias e forças em ação sem direção predeterminada, mas livre e optativa.” (CHIAPPIN, 1979, p. 93)

Vê-se a educação como uma tarefa sublime, árdua, mas com toda certeza sublime e de suma responsabilidade e essa grandiosidade vemos nas palavras de CHIAPPIN (1979, p. 25), ao escrever: “Como um papel branco onde [sic] vão se imprimir os primeiros carimbos e moldes, assim apresentam-se a criança em sua natureza potencial, aberta, perfectível, disponível à ação dos pais, educadores, ambiente e condicionamentos.”

Hoje se enfatiza, se dá muito valor na sociedade à formação de jovens cidadãos competitivos, independentes e na maioria das vezes sem pudor ou escrúpulos, para que ocupem os melhores cargos nos melhores empregos. Mas a que preço? Até que ponto isso é sadio? Onde fica a formação moral e ética dos seres humanos?
É preciso sim adquirir conhecimento, procurar ser o melhor naquilo que faz e seja feito com excelência, ter um futuro com uma boa profissão e salário digno, mas que tudo isso venha acompanhado de ética, caráter exemplar, equilíbrio emocional e companheirismo.

Ao falar sobre personalidade a autora Novello (1990, p. 41), escreve que ocorrem na criança “grandes modificações psicológicas, o que leva a um amadurecimento e define a própria personalidade”.

Conflitos, dúvidas e questionamentos são normais no crescimento e para a formação da personalidade da criança, é importante para a criação de quem ela é como ser, para a inevitável pergunta e resposta que muitos não sabem responder: “Quem sou eu?”

As questões a serem resolvidas e orientadas pela família são muitas como: desobediência, mentira, injustiça, ciúmes, inveja, agressividade, egocentrismo, insegurança, fantasias e tantas outras que se não trabalhadas de forma correta, contribuirão para a formação de uma personalidade problemática e desestruturada.

Um adulto inseguro não conseguirá viver em perfeita harmonia com outras pessoas e essa insegurança o levará a não ter confiança em si mesmo e a uma baixa autoestima.

A escritora Novello (1990, p. 129), escreve sobre a personalidade faz algumas observações sobre os pais: “É frenquente ver pais que foram educados muito rigidamente dar toda liberdade ao filho. Esquecem-se de que o filho ainda não é adulto e necessita de alguns limites, pois não possui a capacidade de escolha para reagir convenientemente quanto ao uso de sua liberdade.”

Os pais não devem somente criticar a criança, mas orientá-la, ajudá-la e até mesmo fazer uma autoanálise de suas reações e comportamentos, se estão realmente adequadas a idade de seu filho, se não estão sendo muito severos ou cobrando demais ou exigindo algo que a ainda não tem condições psicológicas de entender ou realizar.

A criança precisa crescer sendo compreendida e amada, num ambiente sadio e acolhedor, onde se sentirá segura, amada e protegida no seu núcleo familiar.

Sabe-se que não é possível traçar regras, pois a educação é um processo dinâmico, individual. Cada adolescente traz consigo características próprias, que devem ser respeitadas para que possa ter confiança nos pais e também para que possa realizar-se mais tarde como um adulto equilibrado e feliz. Importante é estar a seu lado, procurando compreendê-lo, percebendo suas dificuldades físicas ou psicológicas e esclarecendo-as com a devida ponderação. (NOVELLO, 1990, p. 159)

Vemos que os pais não são os donos da verdade. As barreiras precisam ser quebradas e as dificuldades vencidas, pois se as pessoas mais importantes na vida da criança, as que a colocaram no mundo, falharem com ela, não a educando adequadamente, não tendo paciência, não lhe passando bons valores e não sendo bons exemplos, essa criança infelizmente estará fadada ao fracasso.

O aspecto mais significativo da teoria da personalidade de Jung, deixando de lado a sua concepção do inconsciente coletivo com seu arquétipo, é a importância que atribui ao caráter progressista da personalidade em desenvolvimento. Jung acredita que o homem está constantemente progredindo, ou tentando progredir, de um estágio de desenvolvimento menos completo para outro mais completo. Ele acredita também que a natureza humana, como espécie, está constantemente desenvolvendo formas ainda mais diferenciadas de existência. (HALL, 1984, p. 100)

Somos também um somatório de nossas escolhas e que escolhas são ou serão essas? Tivemos bons exemplos, uma boa base para a uma personalidade sadia e não deturpada sem um caráter com desvio de conduta?
Como e para que fomos estimulados?
Nossas capacidades foram valorizadas e elogiadas?
Tivemos nossas limitações trabalhadas?
Regras, perdas, desafios, reações.

Como vemos nossa personalidade não é estática nem imutável, ela está em constante mudança e vai se aprimorando em cada etapa de nossa vida, a cada conquista e a cada nova experiência, recebendo influência e influenciando outras pessoas do nosso meio, sempre retornando aos primórdios de sua formação, a educação.

A autora Borges (2002, p. 137), fala sobre a obra de Vygotsky que é de extrema importância “quanto à influência que a educação exerce na formação da personalidade. [...] toda e qualquer atividade educativa, por tratar-se de um processo eminentemente social, desempenha um papel relevante na formação da pessoa. Borges (2002, p.137), também ressalta que aos estudarmos Vygotsky percebemos o “ser humano como sendo o resultado daquilo que aprende”.

E quem melhor que a família para ensinar, educar e também aprender junto com a criança e até mesmo rever alguns conceitos preestabelecidos, assim estará crescendo e amadurecendo junto com a criança consequentemente reformulando sua própria personalidade.

Pois o educar e a personalidade estão sempre em total evolução.

REFERÊNCIAS
BORGES, Inez Augusto. Educação e personalidade: a dimensão sócio-histórica da educação cristã. São Paulo: Editora Mackenzie, 2002.
CHAPLIN, James P.. Dicionário de Psicologia. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1981.
CHARLES, C. M. Piaget ao alcance dos professores. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1984.
CHIAPPIN, Achylles. Formação da Personalidade. 4. Ed. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, 1979.
CUNHA, Jurema Alcides. Dicionário de Termos de Psinanálise de Freud. Porto Alegre: Editora Globo, 1978.
FERREIRA, Berta Weil. Psicologia pedagógica. Porto Alegre: Sulina, 1977.
FREUD, Sigmund. Cartas entre Freud e Pfister (1909-1939). Viçosa: Ultimato, 1998.
HALL, Calvin Springer. Teorias da personalidade. São Paulo: EPU, 1984, V1.
NOVELLO, Fernanda Parolari. Psicologia da adolescência: o despertar para a vida. São Paulo: Ed. Paulinas, 1990. – (Coleção família e realidade)
PEREIRA, Eliane Regina. Caderno de estudos: psicologia geral e do desenvolvimento. Centro Universitário Leonardo da Vinci. Indaial: ASSELVI, 2009.
SILVA, Everaldo da. Caderno de estudos: sociologia geral e da educação. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. Indaial: Grupo UNIASSELVI, 2007.