Até que Ponto as Obras de Chico Buarque de Hollanda dos Anos Iniciais do Regime Militar Realmente Refletiam Alienação Política?

Até que Ponto as Obras de Chico Buarque de Hollanda dos Anos Iniciais do Regime Militar Realmente Refletiam Alienação Política?

Abstract:
A presente investigação visa fazer uma análise da produção artística do compositor e cantor brasileiro, Chico Buarque, durante os anos iniciais do regime militar—mais especificamente entre os anos de 1964 e 1968—para que possamos verificar não somente se o compositor estava legitimamente “alienado politicamente”, mas também por quais motivos ele seria taxado de ‘bom-moço’ nesse período. Para que se compreenda esses motivos foi feita uma contextualização histórica do referido período, uma análise da progressão do artista e um estudo mais detalhado de duas de suas composições desse período: “A banda” e “Sabiá”. Conclui-se a investigação, portanto, com observações sobre a real ‘alienação’ política do compositor nesse período da ditadura.

Sumário:
Capa.................................................................................................................................................1
Abstract ......................................................................................................................................... 2
Introdução ...................................................................................................................................... 4
Período inicial da ditadura militar brasileira: breve contexto histórico......................................... 5
Os festivais de Música Popular Brasileira e a canção de protesto................................................ 7
A divisão entre “engajados” e “alienados”..................................................................................... 8
Análise da vida e obra de Chico Buarque de Hollanda país ......................................................10
Análise 1: “A banda”................................................................................................................14
Análise 2: “Sabiá”.....................................................................................................................16
Conclusão.................................................................................................................................18
Bibliografia...............................................................................................................................20
Apêndice..................................................................................................................................22

I - Introdução:
Uma característica marcante do período ditatorial do governo Brasil, que ocorreu entre os anos de 1964 e 1985, foi a implacável atuação da censura e repressão. Essa repressão governamental foi capaz de conter grande parte da expressão da revolta popular contra o governo, uma vez que toda manifestação considerada ‘subversiva’ era prontamente censurada; os opositores em, diversos casos, eram torturados mental e fisicamente ou simplesmente “desapareciam”. Não obstante essa repressão decorrente da censura, distintos compositores destacaram-se no Brasil justamente por serem capazes de burlar tal sistema. Chico teve uma incontestável posição de destaque como cantor de protesto, a partir de sua obra “Apesar de Você”, composta em 1970, que posteriormente foi considerada um hino contra a ditadura. Para driblar a forte censura e publicar a sua crítica, Chico usava de metáforas em suas composições, camuflando assim o protesto embutido. No caso da canção “Apesar de Você” a letra aparentemente referia-se a uma mulher muito autoritária, quando na verdade referia-se ao então presidente Médici. Com o sucesso dessa canção, a sua posição dentre os artistas ‘engajados’ (forma como referia-se àqueles que se posicionavam claramente contra a ditadura e sugeriam isso em suas obras) estava garantida. No período entre 1964 e 1968, Chico foi taxado radicalmente de “alienado”. O povo acreditava que suas obras não continham nenhum elemento de oposição à ditadura e com isso adquiriu a figura de “bom-moço” (expressão que tinha uma conotação fortemente negativa na época). Uma breve contextualização histórica do Brasil, o conhecimento de dados da vida de Chico e suas maiores influências, além da análise de duas de suas composições consideradas “alienadas”—“A banda” (1966) e “Sabiá” (1968)—suscitam o seguinte questionamento: Até que ponto as obras de Chico Buarque dos anos iniciais do regime militar realmente refletiam alienação política?

II – Período inicial da ditadura militar brasileira: breve contexto histórico
O regime militar foi instaurado no Brasil através do que ficou conhecido como “golpe de 64” ou “golpe de Estado”. Segunda a descrição da Camila Amorim em sua tese , em que ela explica processo de como o Brasil entrou no sistema ditatorial em 1964, No período pré-ditatorial o Brasil tinha no poder o presidente João Goulart, popularmente conhecido simplesmente como Jango. O mundo estar passava pelo período da Guerra Fria, em que qualquer manifestação de ideais comunistas era tida como uma heresia imperdoável. Jango, na opinião de muitos, tinha uma tendência esquerdista, sofrendo uma forte pressão dos militares.

Por acreditarem que Jango levaria o Brasil para o lado soviético, no dia 1º de abril de 1964 os militares marcharam de Minas Gerais em direção à Brasília na tentativa de depor o então presidente. Jango, assim que tomou ciência desta marcha, rumou de avião para o Rio Grande do Sul em fuga. O Congresso Nacional nem mesmo esperou que ele pousasse para anunciar que, mesmo sem o presidente ter renunciado ou saído do país, a vaga de presidente da republica estava vazia. Primeiramente quem assumiu o posto foi o presidente do Congresso, mas logo em seguida o Marechal Humberto Castelo Branco seria eleito—o primeiro de uma série de militares que governaram o país—começando assim o período conhecido como “regime militar” ou “ditadura militar”.

O Mal. Castelo Branco, sob o pretexto de livrar o país da corrupção e do comunismo que afligiam a nação, introduziu o primeiro dos dezessete Atos Institucionais (AI-1), que visavam potencializar a autoridade do Poder Executivo, minimizando a do Congresso Nacional. Com o AI-1 o governo poderia caçar os direitos políticos de qualquer indivíduo opositor ao mesmo (caráter essencialmente político). O Congresso continuava em funcionamento, até porque se não estaria caracterizada uma ditadura (fato que os militares tentaram camuflar nestes primeiros anos). Seguido do Mal. Castelo Branco o Brasil foi governado pelo presidente Arthur da Costa e Silva, que assume o governo no ano de 1967.

III – Os festivais de Música Popular Brasileira e a canção de protesto
É importantíssimo que se perceba que, por mais que uma das características mais marcantes do regime militar tenha sido a forma com que ele censurou implacavelmente qualquer forma de oposição, essa faceta do regime só passou a se mostrar com a introdução do AI-5. em dezembro de 1968, marcando o começo dos “anos de chumbo”. O Ai-5 garantia ao regime o direito de intervir ainda mais profundamente em todos os setores da administração do país, desde a economia até os direitos humanos (a partir desta data as torturas e os sumiços passaram a ser parte da rotina do brasileiro). Não obstante essa impressão de que o regime sempre reprimiu todas as mídias de expressão cultural, nesses quatro anos iniciais o Brasil brevemente presenciou uma liberdade de expressão que floresceu amplamente.

Devido a essa breve liberdade e a indignação popular por conta dos Atos Institucionais recentemente introduzidos, a produção artística aumentou significantemente nesse período. Este fenômeno, somado ao advento da televisão como meio de comunicação de massas, culminou no começo de uma era de festivais que seguiu viva e ardente até mesmo depois do AI-5 (era uma forma que mostrava uma falsa liberalidade). Esses festivais são de importância imprescindível para o desenvolvimento musical brasileiro, uma vez que foram neles que grandes nomes da Música Popular Brasileira, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina e muitos outros “explodiram” para o público brasileiro.

Como se isso já não fosse o bastante ”o uso dessas canções ultrapassa a simples função de entretenimento, buscando constituí-las como instrumento de crítica, de forma a contribuir para a tomada de poder em outras bases, servindo como possíveis instrumentos de agitação política e conscientização popular, como reação ao regime militar instituído” . A música passara a ser utilizada como uma forma de protesto pelas camadas artísticas da sociedade, uma real formadora de opinião. Este tipo de música passou então a ser chamada de “Canção de Protesto”, que “foi um rótulo utilizado [...] para designar um tipo de produção poética no setor da MPB que denunciava a opressão instaurada com o regime militar” (175). O artista se tornara um agente social que usa dessas canções para possibilitar um casamento entre cultura e poder ; elas muniam a audiência de conscientização e de motivação para que realmente se fizesse alguma coisa em relação à situação política nacional, catalisando diversos protestos e revoltas populares.

IV – A divisão entre “engajados” e “alienados”
Com a chegada do protesto como um elemento recorrentemente embutido nas obras musicais de diversos artistas, alguns se destacavam por o apresentar mais explicitamente. Geraldo Vandré seria provavelmente o compositor que mais reflete essa natureza confrontadora e rebelde que passava a ser a sua marca registrada. No entanto, à medida que Geraldo e um punhado de outros compositores explicitavam o protesto de suas canções, o público passava a esperar uma postura semelhante de todos os outros artistas. Cantores como Geraldo eram intitulados de politicamente ‘engajados’, uma vez que se opunham ativamente ao regime ditatorial; os que não protestavam ativamente, como Roberto Carlos ou Wilson Simonal, eram taxados de politicamente ‘alienados’, o que passara a ser na prática um insulto para qualquer cantor. “Esta divisão incita um processo de radicalização por parte de um público consumidor que, apesar de restrito, era presente”5. Chegara ao ponto onde o povo praticamente cobrava dos artistas uma atitude alvorotada; celebrando os que a tinham, e sujeitando os que não a tinham a intermináveis vaias. Principalmente nos festivais, este cenário se repetia com relativa freqüência, uma vez que grande parte de sua platéia era constituída de jovens universitários fervorosos que naturalmente esperavam um maior extremismo em relação a como os músicos enfrentavam o regime militar.

V – Análise da vida e obra de Chico Buarque de Hollanda
O cantor e compoistor Chico Buarque deve muito de sua destreza com a língua portuguesa e de sua afinidade com questões sociais ao ambiente familiar que vivia. Chico foi o quarto de sete filhos, mas este fato não lhe impediu de ter passado uma infância em ‘berço de ouro’. Seu pai, Sérgio Buarque de Hollanda, um renomado historiado e sociólogo brasileiro e autor do clássico Raízes do Brasil, e sua mãe, Mara Amélia Cesário Alvim, tiveram a possibilidade de prover para Chico uma educação completa e diversificada. Apesar de ter nascido no Rio de Janeiro, passou sua infância em São Paulo e, ao atingir nove anos de idade, foi para a Itália. Seu pai fora convidado a dar aulas na Universidade de Roma. Chico estudava em uma escola americana, o que lhe proporcionou fluência no inglês além do italiano. A riqueza cultural presenciada e adquirida neste período foi-lhe tão influente que motivou-o a composição de suas primeiras “marchinhas de carnaval”. Além de seus pais, por si só serem de grande relevância por seu aspecto artístico e social, o que certamente influenciou o jovem Chico, foram as freqüentes visitas de grandes figuras do cenário artístico brasileiro, como Vinícius de Moraes, Baden Powell e Oscar Castro Neves.

Muito se deve dizer também do contexto histórico no qual Chico passou sua infância. Chico nasce na mesma época em que o governo de Getúlio e o seu autoritarismo tradicional chega ao fim, trazendo em seguida um curto período de liberalismo. É nesse período, marcado pela política ‘desenvolvimentista’do governo de Juscelino Kubitschek, que traz um maior vigor para a produção artística do país, que nasce Chico Buarque. Mais tarde, em 1964, quando ocorreu o golpe militar, que marca o início da ditadura e devido ao estado de liberdade artística de que o país vinha, “uma vontade de participar ativamente da política interna é despertada em diversas camadas da sociedade” (é importante enfatizar que ainda não havia nessa época uma tentativa de repressão dos meios de comunicação por parte do governo). Justamente nessa época Chico Buarque ingressava na sua fase adulta, em que passava a ter uma “vida intelectual e artística consciente”, e começava, assim como a sociedade em geral, a se inquietar com as questões econômicas e políticas do país .

Diversos movimentos estudantis já se organizavam, o que culminara na criaçao da União Nacional dos Estudantes (UNE). Ao ingressar na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, Chico (1963) também passava a se ocupar do ativismo político. Esse ativismo toma a forma de crítica sociale já passa a ser refletido em suas primeiras composições, como “Pedro pedreiro”—em que ilustra, através de metáforas, a luta da massa de brasileiros que sonham com uma vida melhor mas que se deparam com a pobreza—e “Sonho de um carnaval”—em que Chico descreve, também metaforicamente, o período de falsa calmaria que se fez com a ditadura.

Nesse mesmo período, como já mencionado anteriormente, temos no Brasil o fenômeno da popularização dos festivais de Música Popular Brasileira, dos quais Chico Buarque não deixa de tomar parte. Já no ano de 1966 o compositor inscreve no II Festival promovido pela TV Record a canção “A banda”, que acaba adquirindo uma grande popularidade, trazendo o nome Chico Buarque, pela primeira vez, para os ouvidos da nação. Apesar do nível da aceitação popular, essa canção associou ao nome do jovem Chico Buarque a uma imagem de ‘bom-moço’, uma vez que o lirismo, a métrica meticulosa, o ritimo ameno e feliz davam ao público uma impressão de aparente despreocupação com a questão política por parte de Chico. A explosão de popularidade da música “A banda” rende ao Chico o primeiro lugar neste festival, compartilhado com a música expressiva e revolucionária “Disparada” de Geraldo Vandré. No ano de 1966 ainda não havia se estabelecido nitidamente o contraste entre os artistas “alienados” e os “engajados”, apesar de traços dessa realidade já terem sido esboçados com a evidente divisão popular criada: parte do público admirava o lirismo de “A banda”, mas outra parte o desprezava, se contagiando ao perceber o protesto explícito que a canção “Disparada” trazia.

Já no ano de 1968, a situação estava muito mais crítica, uma vez que o povo passava a requerer dos artistas brasileiros um posicionamento mais imponente e agressivo em relação ao regime. De acordo com o próprio Chico Buarque “em 68 não haveria possibilidade nem de eu escrever, muito menos de eu cantar 'A Banda' no festival. Levaria tiro, a vaia era pouco. O momento não permitia mais. Você vê que o espaço de tempo é curto, mas em dois anos a coisa foi se exacerbando” . Foi nesse contexto social de então que Chico compos e cantou para o mundo, numa parceria com Tom Jobim, a canção “Sabiá”, apresentada ao mundo no III Festival Internacional da Canção (FIC) em 1968. A música fora cantada por Cynara e Cybele, que, apesar da bela performance, foram ferozmente vaiadas, sendo a mais longa vaia da história dos festivais. A música cantada de forma doce e harmoniosa, apresentando um lirismo refinado e com um conteúdo sem nenhuma forma de protesto aparente, levou o público a julgar a canção como uma forma de alienação por parte dos autores, que já tinham a sua imagem associada ao ‘bom-mocismo’. O público, já revoltado, esperava que a canção de Geraldo Vandré, “Pra não dizer que não falei de flores”, ganhasse o festival, visto que esta rasgadamente fazia uma crítica ao regime ditatorial da época. O fato da música “Sabiá” terminar a disputa em primeiro lugar foi motivo de uma voraz agitação popular contra Chico Buarque. Nas palavras de Chico: “O que me espantou foi saber o volume das vaias, o que foi, o clima que se criou. [...] Isso tudo que se criou contra a canção foi muito violento. Não to falando da questão de desrespeito, também não existia isso. Ninguém era respeitado. Tava todo mundo sujeito a isso.”

VI – Análise 1: “A banda”
Por mais que lhe tenha proporcionado muito fama e sucesso, “A banda” foi quase que totalmente a responsável pela associação da imagem do cantor Chico Buarque com a figura de politicamente “alienado”. No entanto, com uma análise mais profunda da letra, percebe-se que há realmente um protesto embutido nesta canção, por mais que não explícito a ponto do público jovem e equivocado perceber. “ “A Banda” não é consensualmente uma canção de protesto, sendo identificada, por alguns, como politicamente “alienada”. É possível, porém, percebê-la como expressando, veladamente, o descontentamento com a situação do momento, bem como revelando esperança por novos rumo.”

Apesar do ritimo alegre e ameno, a canção descreve uma cena da vida urbana com um povo amedrontado, triste e solitário, expresso na descrição de “a minha gente sofrida” no verso inicial do refrão, presenciando a passagem de uma banda. Chico Buarque inclui em sua canção desde o “contador”, ao “faroleiro”, a “namorada”, a “moça triste”, a “meninada toda”, cada um deles com seus elementos que os fazem indivíduos distintos, mas que se deixam levar igualmente pela passagem contagiante da banda. Ela se apresenta como um elemento unificador que supri as necessidades de um povo carente, igualizando a todos. Ao passar, portanto, a banda vai trazendo felicidade e um sentimento de alegria que usurpa o estado de letargia em que o povo se encontrava previamente. Chico Buarque busca, atreves dessa simbólica banda, trazer uma mensagem amenizadora para as pessoas que vivem dentro desse contexto repressivo do regime militar.

Essa passagem representa “uma espécie momentânea de desligamento da atualidade da canção, expressando uma utopia e um anseio de que essa passagem não acabe, que ela não passe somente, mas que permaneça e acabe com as dores presentes naquele momento.” Durante grande parte da música presenciamos um povo que enseja se livrar desta realidade violenta e opressora em que vivem—votande essa que é representada metaforicamente pela passagem dessa banda que traz uma utópica felicidade e igualdade. No entanto Chico, em seguida, traz para a canção elementos de realidade novamente, quando nas duas ultimas estrofes ele descreve o fim da passagem da banda, com “cada qual no seu canto” e “tudo tomando o seu lugar”.

O autor, inicialmente, cria um cenário de desesperança, que é sobreposto por um afã de esperança quando a banda passa, que por sua vez é sobreposto por mais desesperança uma vez que a banda já passou. Com isso ele critica o estado trágico em que o Brasil se encontra durante esse regime militar; critica a carência e as diversas necessidades do povo, retratadas pela alegria que a banda traz e critica o fato de não conseguirmos nos livrar realmente desse regime, já que a passagem da banda e apenas momentânea. O fato do ritmo e o tom da canção “A banda” serem ingênuos e contagiantes não é devido à ‘alienação’ do compositor, mas sim a uma forma que Chico Buarque encontrou “de criar contraste com a violência do momento, exacerbando, assim, sua percepção”; Todos esses aspectos da música, portanto, mostram como têm um sutil e presente protesto embutido na canção, que acaba sendo disseminado pelo seu ritmo alegre e pela ignorância dos ouvintes.

VII - Análise 2: “Sabiá”
A canção “Sabia”, assim como “A banda”—e talvez ate bem mais do que ela, devido ao momento mais tenso em que o Brasil se encontrava—proporcionou para Chico Buarque uma intensificação de sua imagem grandemente equivocada de ‘bom-moço’. Essa composição de Chico Buarque pode ser facilmente comparada com a “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias, na qual o eu-lírico descreve a dor que sente por não estar mais em sua terra. Na canção de Gonçalves Dias ainda vemos um extremo saudosismo em relação a pátria, em que o eu-lírico exalta aspectos típicos da fauna e da flora locais. Seus primeiros e mais famosos versos mostram claramente essa essência de exaltação do nacional: “Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o Sabia;/ As aves, que aqui Gorjeiam,/ Nao gorjeiam como lá”. Chico Buarque, mostrando extrema maestria, utiliza o Sabiá, que e um elemento da canção de Gonçalves, adaptando-o a um contexto mais atual.

Assim como na “Canção de Exílio” Chico Buarque usa do Sabiá como um elemento a ser exaltado, que é pertencente do Brasil do qual o eu-lírico sente saudade. Esta saudade, porém, não tem mais a dimensão geográfica que tem na “Canção do Exílio”, sendo que o lapso que distancia o eu-lírico de sua terra nesse caso é temporal ao invés de espacial **LIVRO CB DO BRASIL**, como vemos quando na segunda estrofe ele refere-se à palmeira “que já não há”, assim como à flor “que já não há”, criando esse distanciamento temporal. Desta forma Chico Buarque utiliza-se de um dos pensamentos de seu pai, que em outro contexto escrevera: “somos uns desterrados em nossa própria terra”. Assim como seu pai, portanto, Chico “faz uma crítica à sociedade, mostrando que tudo de que ele sente saudade nesta terra não existe mais.”

Além da beleza melódica da canção, já merecedora de muitos créditos, a música “Sabiá” também apresenta um altíssimo nível de sensibilidade social, a ponto de ter uma essência premonitória. Ainda no ano de 1968 foi promulgado o AI-5 que, diferentemente dos outros Atos Institucionais, passa a visar fortemente à classe artística, trazendo censura, perseguições e muita tortura. Como conseqüência mais do que natural, diversos artistas brasileiros passaram a se refugiar em outros países onde a situação política não estava tão conturbada. À medida que esses artistas se exilavam, essa canção passa a ter uma nova conotação: passara a ser cantada com o hino dos exilados, saudando a beleza do país que conheciam, mas que “já não havia”. O próprio Chico Buarque acaba se incluindo nesse grupo de exilados, uma vez que, ainda em 1969, se auto-exila na Itália, temeroso por conta da intensificação da repressão cultural no Brasil.

Nota-se ainda que, assim como na canção de Gonçalves Dias, Chico Buarque traz em sua canção um ar de otimismo em relação ao futuro. Ele reconhece, sim, realistamente que seu país já não era mais como foi anteriormente, mas se posiciona de tal forma que inspira um pensamento positivo no seu ouvinte. Com isso conforta os que haviam saído de sua pátria, uma vez que o eu-lírico afirma seguramente, no começo de cada estrofe, que “vai voltar” para onde é “seu lugar”. Chico Buarque, simultaneamente, lamenta a perda da antiga realidade brasileira e incita um ardor otimista que, assim como num protesto, motiva o brasileiro a não desistir do seu Brasil.

VIII – Conclusão
Dada essa análise da vida de Chico Buarque, juntamente com o contexto histórico e as interpretações das músicas acima, percebe-se que, diferentemente do que era pensado na época, Chico tinha uma dose considerável de críticas sociais em suas canções. Através de intrincados simbolismos e metáforas, ele estabelece uma forma de protesto que passou despercebida por grande parte dos apreciadores de Música Popular Brasileira que o ouviram. Seu protesto jamais teve a forma explícita, contrastando com o protesto de Vandré, uma vez que todo a crítica de Chico é muito sagazmente camuflada por trás de uma alta dose de lirismo e de uma melodia mansa. Essa característica de suas composições fez-se altamente necessária nos anos conseguintes, sendo que com a expedição do AI-5 somente as músicas que conseguissem burlar o sistema de censura imposto pelo regime seriam publicadas. Nesse período ele mostrou-se um exímio manipulador, tendo diversas de suas canções de protesto aprovadas, assim como a sua emblemática canção “Cálice”.
No entanto, o fato de a mensagem da letra de suas canções estar camuflada não é o único motivo pelo qual Chico era visto como “alienado”. Um elemento que definitivamente teve um impacto em como as suas músicas eram interpretadas era que o público que prestigiava os festivais de música era em sua maioria constituído de universitários. Eles, por conta do calor e do radicalismo intrínsecos da juventude, tendem a esperar por um protesto muito mais objetivo e explícito. Essa necessidade de uma reação latente não é somente oriunda da jovialidade do público, mas também da forte repressão política imposta na população, que por fim a motiva a se rebelar contra o próprio governo. Essa rebeldia causa um extremismo por parte dos brasileiros, que esperam um mesmo extremismo dos artistas. Então quando Chico Buarque se propõe a fazer um tipo protesto sutil e, de certa forma, codificado, o público prontamente se opõe ao Chico Buarque.

Um ponto que é muitas vezes esquecido, mas que é pertinente e deve ser levado em consideração é que Chico, por mais que tenha elementos de protesto embutidos em suas melodias, tinha sempre como contraponto o compositor Geraldo Vandré. Desde o festival de 1966 em que Chico e Vandré dividiram o prêmio de primeiro lugar, a obra de Chico é constantemente comparada com a obra de Vandré, cujo trabalho tem indiscutivelmente uma natureza de protesto muito mais explícita e revoltada do a das composições do Chico, o que fazia com que o povo se relacionasse com Vandré muito mais calorosamente.

Logo, porque na percepção do público jovem a forma musical acabava prevalecendo sobre a compreensão do real conteúdo da música—o que inclui a análise de complexos símbolos e metáforas—e porque Chico frequentemente tinha Geraldo Vandré sendo usado como contraponto ao analisar suas obras, o valor do protesto em suas canções era muitas vezes menosprezado. O estigmatizaram com uma imagem errônea de “bom-moço” por mais que, na realidade, o protesto tenha sempre tido presente em suas músicas.

IX – Bibliografia
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X – Apêndice
“A banda” - Chico Buarque

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor
Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor...

“Sabiá” – Chico Buarque e Tom Jobim

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De um palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor Talvez possa espantar
As noites que eu não queira
E anunciar o dia
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
E é pra ficar
Sei que o amor existe
Não sou mais triste
E a nova vida já vai chegar
E a solidão vai se acabar
E a solidão vai se acabar